quinta-feira, 6 de maio de 2010

A História Sim, Não Se Repete

Este excerto do Vasco Pulido Valente sobre o século XIX português até podia servir para um comentário sobre o teatro das massas da atual política nacional:

"A imprensa local e a do Porto não se referiram aos pormenores técnicos do caso. Mas não pouparam descrições do padre, da sua virtuosa vida e da sua imensa caridade; ou da "mãe decrépita", que o acompanhava quase moribunda. "A cena", como escreveu D. Garcia de Mendonça, "era patética, sentimental e socialmente pungente", ou seja, perfeita para a retórica de Vieira de Castro.Percebendo isto, o delegado do Ministério Público pediu mesmo ao júri que "não se deixasse iludir pelos rasgos oratórios do defensor, pelas flores da sua eloquência e pelas belezas do seu talento". Mas sem se impressionar com esta apresentação, Vieira de Castro abriu com a seguinte tirada: "Não trago flores, senhores jurados, para vos iludir. As flores oferece-as o povo ao sólio, a saudade ao túmulo, a devoção aos templos. As flores são para os regozijos públicos, para as alegrias, para os júbilos. Este é um dia de luto. Não tenho flores para vos iludir: tenho a verdade e as lágrimas para vos convencer." Falou depois, sem interrupção, durante três horas.
O auditório gostou do seu estilo de "rebentões de ouro", que, "desprendido das formas antiquárias do foro, dos monótonos parágrafos e das citações jurídicas", se "elevava em voos de sublimes concepções de filosofia e de direito". O júri gostou tanto que absolveu os réus."


Vasco Pulido Valente in Glória


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