sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Fidalguia, Galopins e Boys



A fidalguia portuguesa, muito em contradição com o ora et labora da ordem cisterciense, nunca esteve muito preocupada com a construção do quinto império; enjoados, mantiveram-se numa terra que depois do esplendor dos século XV e XVI, tornara-se sítio pouco habitável para as grandes mentes que não conseguiam introduzir o método científico, continuando a vencer a teimosia escolástica de citar Aristóteles como se não existisse outro autor - como notou Verney -, tornando-se porto de partida para o Brasil, para aqueles portugueses que queriam continuar a sonhar com a refundação de Portugal.


Essa fidalguia sempre gostou de pouco risco; não eram lá rapazes de se meterem em algum negócio onde não pudessem sempre lucrar os 10% certos, mesmo com a flutuação dos preços ou com as intromissões dessa sempre, para eles, corja de estrangeiros e estrangeirados. Então quando surgiu o Estado em Portugal essa fidalguia, neta dos apoiantes de D. João I, não abraçou o capitalismo mas sim uma forma primitiva de economia e sociedade familiar onde o Estado, de todos mas só para alguns, servia para equilibrar os problemas do risco de investimento.



Tal como diz Raymundo Faoro, em terra de barões - nas palavras de António Cândido - só se poderia resolver os conflitos políticos se se institucionalizasse um Estado forte e centralizador; como não existira um verdadeiro feudalismo, o rompimento com as classes nobiliárquicas apenas terá produzido uma outra classe de nobres, antigos burgueses que apenas quiseram copiar os vícios da nobreza. Como esses novos senhores não estavam cientes do seu papel de autonomia, formou-se uma elite preconceituosa, desligada das populações e em contato permanente com as modas do estrangeiro que dificilmente poderiam copiar sem ser através do crédito, dos juros e das dívidas constantes.



Em pleno século XIX essa fidalguia alargava-se ao pessoal dos partidos e à administração; eram os galopins que acorriam a mando do senhor local ou da administração central à caça do voto. Tornam-se influentes, com uma independência económica sustentada pelo erário público ou por dever de lealdade do campesinato pobre; outros vão para um dourado êxodo rural em Lisboa, donde pelos arrabaldes chegando ao Terreiro do Paço tornam-se autênticos doutores, quem sabe deputáveis ou ministeriáveis, para gáudio familiar e de amizades que se desdobram em empregos e deputações. Acontece o que Herculano considerava ser a miséria dupla do campesinato e do galopim urbano, pois que se o primeiro não escondia a sua condição, o segundo, escondido atrás dos ornamentos e de uma falsa riqueza, esperava que o seu amigo chegasse a ministro para que logo conseguisse um qualquer emprego na administração.



O debate político despido de ideias, de ideologias não conseguia esconder uma fraca participação popular, logo atrás dos arranjos do "grande eleitor" naquela fraude eleitoral que desintegrava o princípio da representatividade que tanto os liberais portugueses proclamavam. Parecia que a política tornara-se a Gande Porca, para bem de quem quisesse continuar a respeitar o seu chefe e o chefinho do partido ou o grande proprietário lá da vila. A política era símbolo de ignóbil porcaria, de arranjinhos e negociatas. Parece que foi nesse ambiente que apareceu o Estado Novo, baseado na ideia que os partidos e os caciques foram os causadores da enorme desorganização das contas públicas e da desordem política. Mas também, logo ali no início do Estado Novo desenhou-se aquela social-economia que se queria através das corporações, não só para calar dissidentes mas também para juntar tudo e todos que queriam fazer parte do novo clube, criando um centro despótico e um deserto político em torno dele.



No desenho constitucional da III República, feito pelos melhores que lá se sentaram naquela Assembleia Constituinte, tribunos de primeira linha, acautelaram-se logo todos os traumas e erros dos sistemas anteriores. Manteve-se o erro de esquecer a economia produtora; manteve-se o erro de querermos continuar fidalgos sendo ao mesmo tempo mendigos profissionais; esqueceram-se as formações políticas dentro dos partidos e o sistema de recrutamento encheu-se de muita estatística onde não cabem os melhores, mas onde persiste as matemáticas eleitorais internas, os jogos e as estratégias, o boy(zinho) que continua correndo nos corredores da faculdade praticando o verbo "cacicar" para levar os votos ao chefinho ou para ele mesmo se servir desses votos para derrotar o chefinho numas eleições próximas; ou é boy, já graúdo, mas com pouca escola da vida, andando pelos corredores das grandes empresas ou do ministério, servindo a justificação do poder, mesmo daquele que é cego, surdo e mudo.

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