quarta-feira, 8 de setembro de 2010

É Sempre Bom Reler Weber


É sempre bom reler Max Weber para encontrar, nos escritos do passado, pedaços do futuro.


"If a state or party is led by people who (in the economic sense of the word) live exclusively for politics and not from politics, this necessarily means that the leading political strata are recruited on a 'plutocratic' basis. Admittedly, this does not also entail the converse, namely that plutocratic leadership meant that the leading political strata did not also strive to live 'from' politics by exploiting their political rule to the benefit of their private economic interests (...) It means simply that such professional politics are not obliged to seek recompense directly for their political work, as anyone without means is bound to do. Nor does it mean that politicians without a private fortune are merely or chiefly concerned with providing for themselves by means of politics, and that they are not, or not chiefly, concerned with the 'cause'. Nothing could be less correct. We know for experience that a man of property makes provision for his economic 'security' a cardinal point of his whole conduct of life, whether consciously or unconsciously."


"Nowadays the rewards bestowed by party leaders for faithful services are offices of all kinds in parties, newspapers, cooperatives, medical insurance schemes, municipalities and states. All clashes between parties are not only conflicts about substantive goals; they are also and above all struggles for the patronage of office (...) Some parties and notably those in America since the dissapearance of the old conflicts about the interpretation of the constitution, have become simply parties of position-seekers wich change their substantive programme according to the chances of winning votes. Until very recently in Spain, where 'elections' were manufactured from above, the two major parties simply had an agreement to govern by turns as to provide offices for their following. In the Spanish colonies all so-called 'elections' and all so-called 'revolutions' are always concerned with the state trough at which the winners wish to be fed."

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Lobby Arquiteto


Enquanto o TC multa os partidos e as campanhas de bonés e canetas, na secção "margem sul" do PS institucionalizou-se o lobby dos arquitetos. Uma prática corrente na aparelhagem intrapartidária portuguesa que priveligia o cidadão-militante contra o cidadão-eleitor, esquecendo que um e o outro são uma e a mesma coisa. Tudo em nome do que Sérgio Buarque apelidou de "sociedade familiar". Sociedade essa organizada em bandos onde prevalece a vontade dos barões e o serviçal religioso, em detrimento da organização de uma ideia de comunidade, ou seja, uma luta contra o Estado, que mais tarde se assumiria Estado e se institucionalizaria contra os que dele não fazem ou não querem fazer parte.


Um dos grandes errros dessa sociedade é a de esquecer onde começa e acaba o público, pois que se permite a consagração do bando familiar. Logo, onde existe privado corre-se a torná-lo público e onde existe público talvez se tente tirar de lá o Estado para não se sofrerem consequências.

terça-feira, 20 de julho de 2010

‎"Each member proposed one candidate, all of whom were discussed and, if necessary, examined in person"


Estes são os apontamentos de Anthony Gottlieb no New Yorker sobre o novo livro de George Szpiro, "Number Rule: the Vexing Mathematics of Democracy from Plato to the Present". Obra que talvez desse um grande jeito aos esotéricos académicos ditos "braço direito" e "braço esquerdo" de Pedro Passos Coelho, que agora propõem alterações, também elas esotéricas, à Constituição. Parece, afinal, que o problema é somente simbólico.


Aqui na Grande Porca queremos pensar que ele é sistémico. E, por isso, a alteração teria de ser feita, por exemplo, na Lei Eleitoral e na Lei de Financiamento dos Partidos, para começarmos pelos ditames jurídico-institucionais, aréa que, aliás, já foi explorada por académicos e alguns políticos responsáveis; mas seria também necessária uma reforma da pilotagem do Estado, ou seja, uma visão de serviço público e uma soltura da sociedade, coisas que não são decretadas constitucionalmente nem através de remendos de legislatura.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Tradição e Modernidade - Contos para uma História do Plano Tecnológico na Terceira Vaga


Para além de ser necessário ressuscitar Max Weber na política como vocação, valeria, também, a pena ler-se Eisenstadt em A Dinâmica das Civilizações:

"A elaboração das características das sociedades tradicionais e modernas que teve lugar nas fases iniciais de investigação salientou em regra as distinções entre ambas; assim, persistiu e tornou-se mesmo mais apurada a concepção destes dois tipos de sociedadades como sendo claramente dicotómicas. Mas apesar da utilização muito frequente do conceito de sociedade tradicional - ou talvez devido a ela -, não surgiu um tratamento mais diferenciado ou aperfeiçoado do conceito de tradicionalidade ou da própria tradição. A diferença entre as sociedades tradicionais e modernas era vista no plano dos traços sociodemográficos e estruturais e, consequentemente, tanto a tradicionalidade como a modernidade eram consideradas como a soma total ou o epítome de diferentes constelações desses traços; e a tradição era entendida como o poder ou entidade que tinha de ser quebrada para assegurar a emergência e ascenção de forças económicas, políticas e sociais modernas, portadoras de desenvolvimento."

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Deixa Lá Não Faças Hoje


Ainda há cerca de uma semana, Zapatero vivia aqueles últimos cinco minutos de propaganda sobre a manutenção do mais do mesmo, até que ontem lá anunciou que os factos obriga-lo-iam caso não baixasse os salários dos funcionários públicos e controlasse os gastos pelos lados da subsidiodependência.


Por cá mantemo-nos nos cinco minutos finais de um regime de partidos que não quer perder o eleitorado que, afinal, vistas as coisas pelo lado da verdadeira mobilização social, nunca teve. Ficou-se, então, pelo simbólico, pela purga dos altos rendimentos; ficamos à espera que o turismo floresça em Fátima para taparmos uns quantos buracos no orçamento.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A História Sim, Não Se Repete

Este excerto do Vasco Pulido Valente sobre o século XIX português até podia servir para um comentário sobre o teatro das massas da atual política nacional:

"A imprensa local e a do Porto não se referiram aos pormenores técnicos do caso. Mas não pouparam descrições do padre, da sua virtuosa vida e da sua imensa caridade; ou da "mãe decrépita", que o acompanhava quase moribunda. "A cena", como escreveu D. Garcia de Mendonça, "era patética, sentimental e socialmente pungente", ou seja, perfeita para a retórica de Vieira de Castro.Percebendo isto, o delegado do Ministério Público pediu mesmo ao júri que "não se deixasse iludir pelos rasgos oratórios do defensor, pelas flores da sua eloquência e pelas belezas do seu talento". Mas sem se impressionar com esta apresentação, Vieira de Castro abriu com a seguinte tirada: "Não trago flores, senhores jurados, para vos iludir. As flores oferece-as o povo ao sólio, a saudade ao túmulo, a devoção aos templos. As flores são para os regozijos públicos, para as alegrias, para os júbilos. Este é um dia de luto. Não tenho flores para vos iludir: tenho a verdade e as lágrimas para vos convencer." Falou depois, sem interrupção, durante três horas.
O auditório gostou do seu estilo de "rebentões de ouro", que, "desprendido das formas antiquárias do foro, dos monótonos parágrafos e das citações jurídicas", se "elevava em voos de sublimes concepções de filosofia e de direito". O júri gostou tanto que absolveu os réus."


Vasco Pulido Valente in Glória


segunda-feira, 3 de maio de 2010

É Para Amanhã


O ministro da economia disse que o pagamento só começa lá para 2013, o que serve como argumento para defender as obras públicas e os investimentos público-privados; parece que nos vamos comportar como aquela gente que compra carro mas não paga a prestação do dito no primeiro mês.

Manuel Alegre, enquanto espera pelo apoio da direção do PS, acabou por defender o mesmo, ao criticar Cavaco por se ter insurgido contra a estratégia do governo para o investimento público. Claro que ficou pelos jardins da sua ideologia do social, mas, esperava brio, quando é preciso dar a mão à palmatória, mesmo daquilo que, face aos factos, se comprova errado.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dos Fracos Não Reza a História


Houve em tempos, nos romances de Eça, Camilo e Júlio Dinis, aquelas personagens da política nacional do século XIX que pareciam produtos daquilo que Stuart Mill considerou ser a falta de conciliação entre o princípio da participação e o princípio da competência. Essas personagens repetiam-se ao longo dos processos como que por mimetismo geracional: do proprietário como cacique ao burocrata que vivia às custas do amigo ministro, do bufo ao enviado partidário, ao galopim dos novos tempos.
Mas a História não se repete. Repetem-se, sim, as fórmulas, as personagens e os comportamentos; e quando não se repetem os comportamentos, repete-se a ignorância e defendem-se ideias absurdas como grandes obras públicas em contextos económicos desfavoráveis, depois de ler umas quantas sebentas de pacotilha.
Dos fracos não reza a História; só espero que os fortes não se revejam na sobrevivência do darwinismo social, porque sobreviver pode ser repetir a mediocridade.

domingo, 25 de abril de 2010

Enquanto o Pau Vai e Vem Folgam as Costas

Continuando a série de posts com títulos de origem bem popular, felicito aqui a intervenção do Prof. Paulo Guinote no Plano Inclinado de ontem. Nos últimos anos tenho acompanhado alguns alunos do secundário e tenho visto uma degradação continuada não só dos esquemas de avaliação, mas principalmente das perspetivas de mobilidade social.

O sucesso para estes jovens, como disse Paulo Guinote, não é uma consequência do trabalho, mas apenas uma imagem distorcida da realidade, dos mass media, do facilitismo; elementos do novo mundo que a escola de hoje, por não conseguir derrotá-los, juntou-se a eles.

Ainda no outro dia um aluno do secundário contava-me que na turma dele ninguém quis fazer um trabalho proposto pelo professor; a resposta do professor foi sintomática: "façam outra coisa, mas façam". Façam o que fizerem é melhor que acabem a escolaridade obrigatória sem referências; um ensino de engano, onde parece que o sucesso duradouro baseado num sistema meritocrático e competitivo capaz de criar elites, não é coisa que os partidos de agora estejam muito interessados em fazer.

sábado, 10 de abril de 2010

A África do Sul africaniza-se

"The event took place in Zimbabwe, and involved, as fate would have it, Julius Malema, the ANC Youth League leader whose repeated singing of an old struggle song about shooting Boers is viewed by many Afrikaners as an incitement towards precisely the sort of violence that claimed Terreblanche's life. Even as an iron bar shattered the old right-winger's skull, Malema was in Harare, feasting with Robert Mugabe and picking up tips on how best to destroy the teetering remnants of Western influence here in South Africa. Terreblanche's murder was an individual tragedy. Malema's actions threaten to destroy an entire subcontinent.

Julius Malema is a chubby man-child who rose to prominence as Jacob Zuma's attack dog, threatening violence against anyone who sought to block the Zulu patriarch's rise to the state presidency. When Zuma emerged triumphant, Malema found himself in the pound seats. A poorly educated 28-year-old, he mysteriously acquired two posh houses, a fleet of cars and an obscenely expensive Breitling watch – curious accessories for a man who positions himself as champion of the poor."

Em poucos outros case study se pode observar com tanta clareza a importância de um Homem excepcional, como foi Nelson Mandela, no destino de um estado. Superando as melhores expectativas, pela sua mão a África do Sul tornou-se um enclave de (relativa) estabilidade e reconciliação num continente onde ambas escasseiam. Na sua ausência, assiste-se à progressiva e lenta mugabização do partido por ele fundado.

Se fazer sapateado na sua lápide era o que queriam, podiam pelo menos tê-lo deixado morrer em paz.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Estado da Arte

A Inês de Medeiros, coitada, lá continua à espera do Conselho de Administração da Assembleia e nós todos esperamos que o auditor jurídico se mova, não pela "legalidade" da coisa, mas que leia Rawls e que na dita resolução do Conselho se aplique uma norma anti-paraquedismo; seria até bem "legalista" que a dita deputada viesse representar o círculo eleitoral de Lisboa, convivendo num 24/7 com os verdadeiros lisboetas das tascas.
Para lá de Babilónia, o ácido continua a corroer as paredes das instituições e esperamos que, juntamente com a base tenhamos uma reação química puramente democrática onde se conserve o sal necessário para temperar os corações, as ambições e os projetos.

terça-feira, 16 de março de 2010

Ambivalências e Engenharias


Lá passei os olhos e os dedos pelas "Linhas Gerais" do PEC e percebi que interessa continuar a rematar números para a praça pública, sem se deixar de fazer o sempre arraial político. Olhemos os números, sem esquecer as grandezas que os fabricam:


1. Continuamos a sofrer, como os espanhóis, da fatalidade de escolher entre aumento da iniciativa estatal e contenção dos gastos para acabar com o défice das contas públicas, pois se o primeiro aumenta a empregomania pública, o outro acaba com a iniciativa estatal, único reduto de iniciativa em países como o nosso; com o fim da iniciativa pública cresce desemprego e cresce busca da procura, como também crescem fenómenos subversivos de um Estado social que não pode ser sustentado por não existir economia; não basta copiar os franceses que tinham copiado os escandinavos, foi e é preciso acautelar processos;


2. É claro que a dívida pública aumentou em 2008! Para se ganhar eleições em Portugal, e isso vê-se nos programas partidários de todas as geografias ideológicas, basta juntar o social à democracia, basta apelar aos sindicatos com aumentos de ordenados e com aumento de subvenções, o que acarreta o aumento da dependência, de uma sociedade civil que, se é real, torna-se enfraquecida - entre 2005 e 2008 "o peso das despesas com o pessoal diminuiu de 33% para 26% e o das prestações sociais aumentou de 42% para 49%."; é um círculo viciado pois se todos os partidos prometem modelos económicos idênticos, sempre acabamos por recriar fenómenos de dependência - onde até se incluem a corrupção e as clientelas -, pois sempre é mais fácil recorrer ao voto fácil do que à estruturação da cultura política nacional;


3. Espera-se que a despesa com a procura interna suba dos atuais 0,3% para os 1% em 2013, com a sempre presente subida das despesas com importações de 1,7% para os 2%, mantendo-se a necessidade de financiamento externo à volta dos 8% até 2013; o adiamento do TGV para não incluir essas despesas com o aumento da necessidade de investimento, bem como a liga de interesses instalados das obras públicas, torna esse adiamento uma promessa ambivalente;


Hoje na Grécia, para além da subida definitiva do IVA dos 19% para os 21%, os funcionários públicos, que representam muito mais do que os trabalhadores do privado, organizaram uma enorme greve - por aqueles lados, tal como cá, o sindicalismo empresarial anda de rastos; pois parece que a nova revolta dos povos europeus será feito pelos "mestres" de Bolonha - não sou um deles -, atávicos, como que saídos de uma fábrica de engenharias sociais da banha da cobra, esperando o aumento das despesas sociais em países onde não existe lugar para eles, nem para o aumento das mesmas.

domingo, 14 de março de 2010

Quando o enxerto em estaca não pega...

Se os responsáveis da Selecção Portuguesa tiverem um mínimo de vergonha na cara e uma réstia patriotismo não bacoco, este aqui não volta a vestir a camisola da selecção.

Touché



O que Cavaco não perguntou ao TC

O Presidente mandou para o Tribunal Constitucional a lei do parlamento que altera o Código Civil em matéria de casamento. Interroga o Tribunal acerca de três ou quatro artigos. Não sei se um deles é o que veta aos novos e legais casais (os entre pessoas do mesmo sexo) a possibilidade da adopção. Dentro da "lógica" da coisa (a famosa igualdade) tal artigo seria o primeiro a ser questionado acerca da sua constitucionalidade. Se Cavaco não perguntou, devia ter perguntado.

Esta "omissão" do PR, curiosamente na maior vulnerabilidade existente no diploma em questão, permite uma única leitura: a verificação da constitucionalidade invocada pelo PR prende-se não com questões de legalidade constitucional objectiva, mas com a tentativa de obter validação jurídica do que será uma objecção politica do PR (o casamento), ignorando olímpicamente normas bem mais duvidosas, mas que politicamente merecerão a sua aprovação (a proibição da adopção).

O PR tem todo o direito a não querer que os homossexuais se casem. Tem até o direito de vetar politicamente um diploma do qual discorda. Dispensava-se, era que o tentasse fazer de uma forma encapotada, para além de quixotesca e intelectualmente desonesta.


quarta-feira, 10 de março de 2010

Uma Simplicidade quase Franciscana no Serviço Público

Eu queria ver se na Suécia existiriam fenómenos como a Inês de Medeiros ou assessores empregados por nepotismo ou pela "porreiragem" dos partidos.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Tudo na Mesma no Reino da Dinamarca

Redução de despesas;
Baixa da dívida diária em 6 milhões/dia;
Convencer os credores internacionais para financiar a necessidade constante de empréstimo;
Sobem impostos;
Continuamos com TGV e Aeroporto;
Os alemães já não querem pagar aos "mendigos profissionais" da Europa sem maiores contrapartidas;

Uma gaja importante (e moderna) do PS:

«Edite Estrela diz que mulher a governar Banco de Portugal seria «sinal de grande modernidade»

P(R)EC'alhadas


Parece que lá conseguimos descolar da Grécia, num processo que me parece de louvar, feito pela caríssima multinacional de relações públicas Kreab & Gavin Anderson (KGA). Nos jornais internacionais continuamos em primeira página e por cá espera-se que os impostos aumentem até 2013, naquilo que já era de esperar face às lutas sindicais e ao mais do mesmo desta economia sustentada pelos credores internacionais. É que para mostrarmos a Bruxelas que quem coordena a nossa economia, ou seja, descer o défice público para 3% até 2013, teremos, como sempre de agravar a carga fiscal.


Os gregos vão já num terceiro pacote de corte de despesas, tendo de enfrentar uma possível subida do IVA de 19% para 21% - tal como cá a única forma de obter receita -, congelar pensões e cortes no 14º mês dos funcionários públicos. Num país como o nosso, ainda um pouco longe da atual situação grega, continuamos com os sindicatos que, apesar de muito legitimamente convocarem greves, ainda não entenderam que já não podem fingir-se Ali-Babás tentando resgatar o tesouro aos quarenta ladrões; continuamos com candidatos do PSD sem grandes ideias de monta para a reformulação da economia, no que me parece ser a continuação do que eles sabem ser o sistema de benefício próprio deles e dos restantes partidos, ou para não ser tão cínico, talvez o problema fica-se pela falta de criatividade; continuamos presos à ideia de uma economia distributiva sem antes termos acautelado uma economia forte que conseguisse apresentar tecido industrial, pelo menos, para consumo interno.


O FMI ou a UE podem vir aterrar em Figo Maduro daqui a uns dois anos e podem com certeza resolver o problema do défice e injetar uns quantos euros e podemos até ver um arranjo sério e patriótico entre todos os partidos, que voltaremos à mesma roda da fortuna onde sempre, parece, acabamos por voltar; pois teimamos em copiar os outros no que eles têm de contemporâneo sem nunca acautelarmos os processos.

domingo, 7 de março de 2010

Cada um é para o que nasce

O politólogo oficial do PS tenta convencer-nos aqui que investigar se um Presidente mentiu sobre um broche, ou se um Primeiro Ministro mentiu sobre a compra de um canal de televisão privado por uma empresa semi-pública, é mais ou menos a mesma coisa.

Improbabilidades


Nunca suportei o Paulo Rangel. Desde que o comecei a ver num programa semanal de debates da RTP, do qual agora me escapa o nome, e depois num painel do Prós e Contras a par das figuras de Adriano Moreira, Mário Soares e Carlos Carvalhas (ou seria Miguel Portas?). Logo desconfiei que alguém o começava empurrar para qualquer coisa, apesar de eu não perceber bem para o quê. Achei que por baixo de uma pretensa espessura intelectual se escondia um mau politico, incapaz de defender eficazmente as suas posições.

Depois começaram os discursos, prenhes de ornamentos retóricos, que trazem à memória as imortais personagens do Eça, ou os relatos dos livros de Vasco Púlido Valente sobre o Portugal Liberal do pós-Guerra Civil. Fizeram dele líder parlamentar, e cabeça de lista às eleições Europeias. Na campanha, qualquer aparição sua era anunciada pelos cavalos de trabalho da jotinha a relinchar que "Ninguém pára ó Rangel", coisa que me facilitou muitíssimo a decisão na hora de votar. Não nele, obviamente. Ganhou, com a preciosa ajuda do avô Cantigas, e teve o momento alto do seu mandato quando se lembrou de anunciar no Parlamento Europeu que andava aí outra vez o fascismo.

De momento encontra-se novamente em campanha, lutando pela liderança do maior partido da oposição, tendo como estratégia não parar de repetir a palavra "ruptura". O seu adversário é um Obama branco, que quer "mudar" não sei bem o quê, nem sei bem como. Há também um politicamente inexistente líder parlamentar com pinta de burguês do Porto e um nome hífenizado - que terá, alegada e metaforicamente, recebido de Rangel o tratamento que Júlio César recebeu do Brutus.

Tendo dito isto, anuncio desde já que se o nosso figurão vencer a máquina - coisa em que não acredito - e me conseguir convencer que vai mesmo cumprir o que anda a prometer relativamente à Educação, terei o maior prazer em ajudar, com o meu voto, a fazer dele Primeiro Ministro de Portugal

Fazer pela vidinha

"O plano começa assim: amanhã, vou inscrever-me numa juventude partidária. Nessa excelsa organização juvenil, irei aprender a dobrar todas as regras. Caro dr. Pinto Monteiro, se não sabe, fique já a saber: a juventude partidária é a incubadora da amoralidade política reinante. A juventude partidária é uma espécie de recruta para os comportamentos amorais dos futuros governantes. E, meu caro, atente bem no termo 'amoral'. Porque, ali, na juventude partidária, irei aprender a fazer coisas imorais sem sentir culpa ou remorso. Ou seja, irei aprender a ser amoral. Mais tarde, esta ferramenta mental ser-me-á preciosa quando for preciso mentir com ar de anjinho no Parlamento ou na televisão.

Depois desta recruta, passarei a fazer as campanhas dos meus generais (nesta fase, deixarei de ser um menino e passarei a ser um boy). Durante essas sinistras batalhas eleitorais, ganharei a confiança do marechal. Uma vez no poder, esse marechal colocar-me-á numa daquelas empresas que ficam naquele beco obscuro onde podemos ver a prostituição da política e dos negócios. Qual empresa? Olhe, não sei. Não sou esquisito, nem careço de golden share. Contento-me com uma empresa municipal. Nesse barraco do poder local, poderei assumir, finalmente, a pele de traficante de influências. Com essas traficâncias, ganharei imenso dinheiro e os meus chefes receberão benesses sem fim."

sexta-feira, 5 de março de 2010

Páletes! Páletes de Pongóis!

A Escola da Jota

Alegrices

Há uns anos apoiei (passivamente) e votei em Manuel Alegre para Presidente. A coragem que demonstrou ao enfrentar a partidocracia, foi na altura o seu grande atractivo, sobretudo por ter sido a primeira vez que alguém experimentava algo semelhante àquela altitude política.

2011 aproxima-se, e com ele o esperado re-match. Apesar da mais que previsível recandidatura de Manuel Alegre, tinha andado até há coisa de um ano a pensar que ia votar no Cavaco, mas a sua inabilidade politica na gestão de determinados dossiês - vem-me à cabeça a questão do Estatuto dos Açores, em que não podia ter mais razão, mas cujo processo foi, do inicio ao fim pessimamente gerido - e a sua incapacidade de se descolar de Fernando Lima no surreal "caso das escutas" fizeram-me desistir dessa ideia.

Como esperado, Alegre recandidata-se e começa a recolher importantes não-apoios na "ala canalha" do PS. Está decidido, começo eu a pensar. Rebenta o "caso das escutas" e Manuel Alegre, que segundo a lenda ninguém cala, permanece irritantemente silencioso. "Ah, mas ele agora quer o apoio do Sócras, e não pode fazer barulho com isso!", dizem-me. A patacoada das conversas com o Sócrates sobre a preocupação deste com a "língua portuguesa" parecem confirmá-lo.

Isto tudo para dizer que se as eleições fossem já, estaria terrivelmente indeciso entre o Garcia Pereira, o voto nulo, ou a abstenção.

P.S. - O senhor da AMI não conta. Não voto em lebres de ninguém, muito menos do Jotinha Grisalho, como muito bem lhe chamou o Henrique Raposo.

Alegre, Sócrates e a Língua Portuguesa


A minha avó e eu também passamos horas a "conversar" sobre a premência e o realismo de uma agenda da promoção activa da democracia no Cáucaso e na Ásia Central. Que me lembre, ela nunca foi com a pinta do Karimov.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Entenda-se o Poder como Serviço!

Houve em tempos Gaetano Mosca que a chamou forza occulta o que por aqui, na nossa dimensão, os engenheiros de nomes da Judiciária apelidaram de face oculta. Em Mosca a forza mais não era do que o arranjo oligárquico das forças, arranjo esse que distanciava a Itália do emergente ideal liberal de sociedade civilizada, comandada por uma política séria; enquanto se submetia as leis da Itália ao liberalismo, as elites políticas, organizadas em torno da fraude eleitoral e dos grupos de interesses, permaneciam nas práticas oligárquicas do Antigo Regime; ali, em pleno século XIX, voltava-se a pensar Platão e Aristóteles.


Por terras ibéricas pensaram Joaquín Costa e Oliveira Martins, muito centrados tanto nos fenómenos clientelares como naquilo que António Sérgio apelidaria de descentralização do espírito, ou seja, não a descentralização territorial do Estado que apenas reproduziria os fenómenos de poder oligárquico e patrimonial nos subúrbios e zonas rurais, mas uma verdadeira reforma do ensino, da cultura cívica, produzindo a emergência da sociedade civil. Para isso seria preciso ir além do garantismo das leis, criando-se uma população consciente e fiscalizadora num horizonte próximo da democracia; esse horizonte só se afigurava possível se, primeiro que tudo, se assegurasse às populações uma verdadeira representação política no executivo e no parlamento, ou seja, uma representatividade local e regional à inglesa independentemente da filiação partidária e dos interesses pessoais. Esse projeto ficou pendente, e na I República, apesar dos sinais da Monarquia Constitucional, nada pareceu alterar-se: eram os Condes d'Abranhos, os caciques tradicionais em luta com os novos caciques com as populações no meio recebendo o "santo e a senha" e foi também a génese do que hoje se chamam deputados pára-quedistas; apenas duas coisas pareceram alterar-se: o regime passou a designar-se de Republicano e desenhou-se um sistema de partido dominante com o Partido Democrático à cabeça patrocinando o multipartidarismo com as dissidências múltiplas que se originavam dentro de si, fruto das relações de poder baseadas em zangas e intrigas pessoais.


Na economia continuámos "pobres [...] ignorantes, vivendo na corrupção e no aviltamento. Em civilização material estanceamos dois furos abaixo da Turquia, e outros tantos acima dos Hotentotes [...] Que inertes no meio do movimento do mundo civilizado, que nos cerca por todos os lados, que estranhos ao progresso que agita as novas sociedades, somos os últimos descendentes de um povo mais caduco que os outros povos da Europa", como advertia Alexandre Herculano. Tal como antes mantemos uma cultura afoita à iniciativa, ao mesmo tempo que caímos na esparrela de querer equilíbrio social sem produção, ou seja, de somar o social à democracia sem base de sustento para cerca de seis milhões de dependentes diretos e indiretos do Estado; de querermos ter economia sem política e políticos sérios, sem partidos com estruturas capazes de deixar solta a sociedade civil, espiritualmente descentralizados e de ter pessoas que não querem tratar da sua vida com negociatas partidárias. Entenda-se o poder como serviço!

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mais Fantochada

1. Este é mais um exemplo das teias de "intrujice" entre os interesses económicos e os interesses políticos instalados em Portugal. Será preciso muito mais do que uma reforma do sistema político para desentupir e descentralizar os espíritos de tantas interpretação errada do que são a politica e o bem comum.


2. Como é possível que investigadores independentes como estes, inclusive pagos pelo Estado para trabalhar para o melhor funcionamento do todo, nunca tenham sido chamados para averiguar ou acautelar o uso e abusos das obras públicas e privadas. Com tanta construção fora do sítio mas com licenciamentos juridicamente aceitáveis, percebe-se porque é que esses mesmos investigadores nunca são chamados!



sábado, 27 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Fidalguia, Galopins e Boys



A fidalguia portuguesa, muito em contradição com o ora et labora da ordem cisterciense, nunca esteve muito preocupada com a construção do quinto império; enjoados, mantiveram-se numa terra que depois do esplendor dos século XV e XVI, tornara-se sítio pouco habitável para as grandes mentes que não conseguiam introduzir o método científico, continuando a vencer a teimosia escolástica de citar Aristóteles como se não existisse outro autor - como notou Verney -, tornando-se porto de partida para o Brasil, para aqueles portugueses que queriam continuar a sonhar com a refundação de Portugal.


Essa fidalguia sempre gostou de pouco risco; não eram lá rapazes de se meterem em algum negócio onde não pudessem sempre lucrar os 10% certos, mesmo com a flutuação dos preços ou com as intromissões dessa sempre, para eles, corja de estrangeiros e estrangeirados. Então quando surgiu o Estado em Portugal essa fidalguia, neta dos apoiantes de D. João I, não abraçou o capitalismo mas sim uma forma primitiva de economia e sociedade familiar onde o Estado, de todos mas só para alguns, servia para equilibrar os problemas do risco de investimento.



Tal como diz Raymundo Faoro, em terra de barões - nas palavras de António Cândido - só se poderia resolver os conflitos políticos se se institucionalizasse um Estado forte e centralizador; como não existira um verdadeiro feudalismo, o rompimento com as classes nobiliárquicas apenas terá produzido uma outra classe de nobres, antigos burgueses que apenas quiseram copiar os vícios da nobreza. Como esses novos senhores não estavam cientes do seu papel de autonomia, formou-se uma elite preconceituosa, desligada das populações e em contato permanente com as modas do estrangeiro que dificilmente poderiam copiar sem ser através do crédito, dos juros e das dívidas constantes.



Em pleno século XIX essa fidalguia alargava-se ao pessoal dos partidos e à administração; eram os galopins que acorriam a mando do senhor local ou da administração central à caça do voto. Tornam-se influentes, com uma independência económica sustentada pelo erário público ou por dever de lealdade do campesinato pobre; outros vão para um dourado êxodo rural em Lisboa, donde pelos arrabaldes chegando ao Terreiro do Paço tornam-se autênticos doutores, quem sabe deputáveis ou ministeriáveis, para gáudio familiar e de amizades que se desdobram em empregos e deputações. Acontece o que Herculano considerava ser a miséria dupla do campesinato e do galopim urbano, pois que se o primeiro não escondia a sua condição, o segundo, escondido atrás dos ornamentos e de uma falsa riqueza, esperava que o seu amigo chegasse a ministro para que logo conseguisse um qualquer emprego na administração.



O debate político despido de ideias, de ideologias não conseguia esconder uma fraca participação popular, logo atrás dos arranjos do "grande eleitor" naquela fraude eleitoral que desintegrava o princípio da representatividade que tanto os liberais portugueses proclamavam. Parecia que a política tornara-se a Gande Porca, para bem de quem quisesse continuar a respeitar o seu chefe e o chefinho do partido ou o grande proprietário lá da vila. A política era símbolo de ignóbil porcaria, de arranjinhos e negociatas. Parece que foi nesse ambiente que apareceu o Estado Novo, baseado na ideia que os partidos e os caciques foram os causadores da enorme desorganização das contas públicas e da desordem política. Mas também, logo ali no início do Estado Novo desenhou-se aquela social-economia que se queria através das corporações, não só para calar dissidentes mas também para juntar tudo e todos que queriam fazer parte do novo clube, criando um centro despótico e um deserto político em torno dele.



No desenho constitucional da III República, feito pelos melhores que lá se sentaram naquela Assembleia Constituinte, tribunos de primeira linha, acautelaram-se logo todos os traumas e erros dos sistemas anteriores. Manteve-se o erro de esquecer a economia produtora; manteve-se o erro de querermos continuar fidalgos sendo ao mesmo tempo mendigos profissionais; esqueceram-se as formações políticas dentro dos partidos e o sistema de recrutamento encheu-se de muita estatística onde não cabem os melhores, mas onde persiste as matemáticas eleitorais internas, os jogos e as estratégias, o boy(zinho) que continua correndo nos corredores da faculdade praticando o verbo "cacicar" para levar os votos ao chefinho ou para ele mesmo se servir desses votos para derrotar o chefinho numas eleições próximas; ou é boy, já graúdo, mas com pouca escola da vida, andando pelos corredores das grandes empresas ou do ministério, servindo a justificação do poder, mesmo daquele que é cego, surdo e mudo.

VPV:

Circo



1. Ao fim de 3 anos, ficou hoje resolvida a questão da constitucionalidade da lei da interrupção voluntária da gravidez, imbecilmente levantada pela direita.

2. No fim-de-semana passado tivemos direito a marcha anti-gay (não, aquilo não foi somente contra o casamento gay) e respectiva contra-marcha. O diploma chegou há duas semanas à secretária do PR e prevê-se longo e colorido chavascal à conta das disposições relativas à adopção, quanto a mim claramente inconstitucionais.

3. Raios me partam se eu sei qual a próxima questão "civilizacional" a ser levantada a seguir. Por agora continuarão entretidos com a esotérica questão do "carácter" do Primeiro-Ministro, enquanto se "solidarizam" com o sofrimento do povo madeirense.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Primórdios


A Grande Porca não é um esforço de raciocínio, mas apenas uma observação quotidiana do país que temos, um diálogo permanente entre os vários "eus" do Portugal de agora. A Grande Porca tem por missão a emergência do despertar da consciência pelos factos, pela "descentralização do espírito", pela "vida conversável".